Mas “para sempre” era tanto tempo que ele não sabia que esse “tanto tempo” era tempo o suficiente para tanto. Amava-a. E amava-a ao modo de Vinícius, um amor realista que, por ser tão fiel a sua realidade, inexistia. As linhas da razão e dos sentimentos, constantemente, misturavam-se. E ele sabia: se isso acontecia ele não a amava. Mas quem era ele, ou você, para decidir “essas questões do coração”, como costumava dizer. O que importava para ele era que o cheiro o gosto o riso o olhar o toque TINHA QUE SER O DELA! Mas não sabia se isso bastava para dizer que a amava. Na verdade ele não estava nem um pouco a fim de definir o que sentia, “isso já faz parte do plano da razão, eu falo de sentimentos”, dizia consigo. Evitava pensar. Insistia em sentir. “Sentir ultrapassa qualquer compreensão”, afirmava, mesmo sabendo que o campo dos sentidos era perigoso. Mas isso não o importunava, acreditava que se parasse para pensar no que sentia, seu sentimento não seria espontâneo, como acha que deve ser, mas sim um sentir direcionado, focado para uma finalidade que sua mente já programou, mesmo que ele não soubesse. Nunca disse um “eu te amo”, “expressão mais subjetiva!”, falava com repúdio. Não preciso dizer o que sinto, apenas basta fazer com que a outra pessoa sinta o que sinto por ela. “O dizer é uma racionalização, prefiro demonstrar. É mais humano, é mais intenso, é mais amar”.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Dizei-me vós senhor deus
Como uma flor se desabrocha em tão ternas manhãs?
Se dormem antes, reclusas, nas tristes madrugadas vãs
E surgem – em riste – a desenrolar-se de enleios seus
Ei-a aqui: flor bruta da paixão abrupta
Bruta flor pura flor sem olores
Ou dissabores
Desprovida de razão, inculta
Incutida em meu jardim
Derrubando suas flores,
Lançando suas cores
Colorindo o até então deserto em mim
Ah senhor deus tu que desconheces o inacessível saber dos prazeres humanos, exasperar-se-ia tal qual o galo ao nascer do sol e, tal qual esse mesmo galo, resolveria cantar, a pleno pulmões, para que todos o ouvissem, a rouquenha melodia da canção apaixonada que, mesmo fanha, ou falha, falaria do nascer de mais uma estação.
domingo, 22 de novembro de 2009
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
PRÓLOGO
Sentia medo. Nada o ameaçava, mas sentia medo. De falar. Ele que iria criar a situação ameaçadora até então inexistente. Era preciso, algo interior lhe impelia a falar. Mãos molhadas se tocam. Fingia erguer-se, como para espreguiçar-se. Ao sentar-se novamente, roçava a lateral da mão na dela. Cochichos ao pé do ouvido. Coração acelerado. Algo se removia em seu estômago. Uma borboleta desenhou uma trilha imaginária, lutando contra os fortes ventos marítimos. O tempo se arrastava exigindo-lhe uma posição. Temia perder-se. Em falas escusas e equivocadas que poderiam afastá-la. Temia, também, a solidão – novamente ela. Tremia. Fazia frio, mas mesmo assim tomava uma cerveja encorajadora. Ela permanecia impassível em sua postura de bailarina. E sorria. E o sorriso alargava-lhe as várias pintas de seu rosto. Pequenos pontos negros que ele imaginava contornos, leves caminhos sobre sua pele. Sinais de riqueza alguns diriam. Distrai olhando-a sem que ela perceba enquanto toma coragem. Ombros se chocam ensaiando uma dança. As mãos já se roçam sem tanta timidez. Não se olham, os olhos seriam um bom caminho. Mas não eram eles que deveriam falar. Até que! Falou silêncio. Não, ainda não foi daquela vez.
sábado, 31 de outubro de 2009
O PÔR DO SOL
Aos casais apaixonados e que encontram-se separados
E foram-se embora sem se dar adeus, ou tchau, até logo ou olá. Apenas desembaraçaram as mãos, ergueram-se e foram-se. O pescoço não se movia, rijo tal qual os mais tensos dos músculos. Apenas os olhos pareciam querer saltar pra trás do pescoço, buscando o outro para ver quem havia vencido àquela disputa de egos apaixonados. Nenhum ousou olhar para trás.
Os passos de ambos soavam descompassados com as reboadas do coração. O ritmo frenético do órgão contrapunha-se aos passos lépidos, era o desejo de não se afastar. Mas se afastavam cada vez mais e cada passo, fazia o tempo de ausência passar mais rápido e mais intenso. Nunca sentiram o passar dos segundosdécimosmilésimos de forma tão forte. Era a dor da separação que lhe aflorava à tez. Era o fim do amor, sentimento, mais, intenso, que, possa, existir, e, que, agora, em, sua, contradição, fazia, tudo, ser, tão, devagar, tão, arrastado, tão. Fim.
Até onde pode ir o orgulho humano. A que desprazer se submetem os apaixonados. Guerra íntima de declarações de amor inaudíveis e excludentes. Separações relâmpagos, flashes de provações mútuas. Torturas recíprocas. Eis o amor em sua crueza, pingando sangue. Amar é dar as costas e esperar para escutar passos vindo até você. Se não escuta, não há amor.
Dessa vez apenas o silêncio escutou. O som dos passos morriam vagarosamente e misturam-se aos sons dos cantos dos pássaros daquele fim de tarde. O amor morria com um belo arrebol vermelho ao fundo. Triste e dupla contradição a que apenas aos apaixonados é possível desfrutar.
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
A VINGANÇA
Marina estava inquieta àquela manhã. Desde que acordara se mantinha elétrica, saltando, correndo, gritando sem parar. Como se não bastasse era acompanhada por Macabéa, a vira-lata que a conquistara no parque a tal ponto que não houve jeito a não ser adotá-la. Agora, três meses depois, estão lá, as duas, correndo, gritando e latindo como se fossem irmãs gêmeas. A novidade do dia era a nova coleira que comprara para Macabéa, verde com azul e uns pontinhos rosa. Nunca entendi a intenção de se fabricarem uma coleira daquele tipo, mas parece que o fabricante sabia o que estava fazendo afinal, assim como Marina, outras crianças poderiam se interessar pelo curioso material.
“Mãe, me leva para brincar no parque com a ‘Mabéia’”.
Não gostava de levá-la ao parque. Por ser muito grande, diversas vezes a perdia de vista e tinha que procurá-la. Por mais que avisasse para ficar perto de mim, Marina dava um jeito de se perder. Mas, naquele dia, era impossível conseguir estudar para a prova do mestrado com aquele barulho. Resolvi pôr um vestido, pegar dois ou três livros e ler no parque. Vi da varanda que o movimento estava relativamente fraco, apenas um senhor de certa idade lia seu jornal próximo a “caverna”, uma espécie de abrigo formado pelas junções das árvores. Pois bem, vesti em Marina o seu vestido e pus a tal da coleira na Macabéa.
O clima estava bastante agradável, as nuvens ajudaram a esconder o sol e as árvores a fazer uma agradável sobra quando as nuvens perdiam a disputa com os raios solares. Lá se foi Marina correr segurando a vira-lata pela coleira. Estava feliz em vê-la feliz. Parece está superando bem a morte do pai, apesar de seus quatro anos incompletos. Mas, infelizmente, tive que deixar de lado a alegria e me debruçar nas violentas histórias de Rubem Fonseca.
Tratava-se da história de um anarquista que, por se ver à margem da sociedade, achava que ela tinha uma grande dívida para com ele, afinal eram seus impostos que faziam as riquezas dele. Então esse moço revolveu se nomear O Cobrador e passar a cobrar às pessoas tudo àquilo que ele não pôde ter e elas sim. Era uma trama bem estruturada e chocante que teve que ser interrompida, pois, Macabéa havia se soltado da coleira e pulava e lambia o pobre senhor que li o seu jornal. Corri até lá e consegui tirar a cadela de cima do homem e, morta de vergonha, pedi mil desculpas pelo descuido.
“Não se preocupe, adoro crianças”, disse com um sorriso largo, exibindo seu dente de ouro.
“Mesmo assim me perdoe”, repeti sentindo náuseas ao ver do dente que brilhava ao sol e sentido um leve arrepio.
O modo como sorriu havia me trazido a recordação do dia em que fui perseguida e agredida pelo Colôlô, um velho mendigo que tinha fama de tarado. De algum modo o sorriso me reportou à imagem que ainda carrego comigo, e sonho, quando Colôlô me agarrou e arrancou minhas roupas, forçando-me a ter relações sexuais com ele. Ainda me lembro quando suas mãos sujas me puxaram para trás de um caminhão, me jogando ao chão. Ao seu cheiro era forte e seus dentes, podres, mordiam minha boca, enquanto suas unhas, carregadas de sujeiras, penetravam minha vagina, fazendo-a sangrar.
Hoje Colôlô está morto, foi brutalmente assassinado quando foi pego me estuprando. Um senhor, que até então nunca havia visto, ouviu meus pequenos gritos abafados por trás do caminhão. Ao ver o tarado por cima de mim, Tibério, esse é o nome do rapaz, não pensou duas vezes e afundou parte do crânio de Colôlô com um martelo que estava ao lado caminhão e que talvez estivesse sido esquecido pelo dono do carro quando terminou de fazer uns reparos na máquina minutos antes. Com a pancada, parte do cérebro da cabeça doentia do estuprador, caiu sobre mim, aumentando ainda mais o meu trauma. Trauma esse vencido após alguns anos de acompanhamento psicológico.
“Sonhos noturnos serão normais daqui para frente”, advertiu o médico.
Resolvi deixar Marina próxima a mim e continuar a ler meus livros. O senhor já não estava mais no banco, talvez houvesse se chateado. Mas voltei a divagar sobre o meu caso... Hoje Colôlô está morto, foi brutalmente assassinado quando foi pego me estuprando. Um senhor, que até então nunca havia visto, ouviu meus pequenos gritos abafados por trás do caminhão. Ao ver o tarado por cima de mim, Tibério, esse é o nome do rapaz, não pensou duas vezes e afundou parte do crânio de Colôlô com um martelo que estava ao lado caminhão e que talvez estivesse sido esquecido pelo dono do carro quando terminou de fazer uns reparos na máquina minutos antes. Com a pancada, parte do cérebro da cabeça doentia do estuprador, caiu sobre mim, aumentando ainda mais o meu trauma. Trauma esse vencido após alguns anos de acompanhamento psicológico. Quando dei por mim, Marina havia desaparecido.
“Lá vamos nós, de novo”, pensei. Recolhi minhas chaves, que é presa a um pequeno canivete que meu falecido esposo sempre usou – não gostava dele, o usava apenas para lembrar-me de meu falecido esposo.
Olhei dentro da casinha de bonecas, por trás dos brinquedos maiores, por trás das pistas de skate e nada da Marina. Uma leve aflição começou a tomar conta. Além de nós, apenas o senhor, que já havia ido embora faz tempo, não tinha mais ninguém no parque para que eu perguntasse por ela. Até que resolvi adentrar a tal da caverna.
Passando pelo banco encontrei o jornal que o senhor estivera lendo há pouco, recolhi-o e, para meu espanto, uma manchete causou- calafrios. “Mais uma criança desaparecida é encontrada: vítima apresentava sinais de violência sexual”. O espanto fez-se pranto, do pranto ao desalento. Entrei apressada caverna adentro e, logo na entrada, dei de cara com Macabéa morta com uma caneta perfurando-lhe os olhos e a garganta. Nesse ponto não era mais uma mãe em busca de uma filha e sim uma vítima em busca de seu algoz. As recordações da violência que havia sofrido surgiam espaçadamente, misturando meus gemidos ao som das folhas que, desesperada, afastava do caminho. Agora, já com o canivete em punho, agradecia ao meu marido por ele cultivar o estranho hábito de usá-lo como chaveiro.
De repente do de cara com um enorme matagal. Mata completamente fechada. Sem saída, cercada pela natureza que aflorava em mim meus instintos mais assassinos, desabei em pranto. Chorava copiosamente ao imaginar o que podia estar sendo feito à minha filha. E, ao jogar, os livros contra as plantas, num gesto de fúria, vejo-os atravessarem, sem obstrução alguma, uma pequena fenda. Jogo-me pela passagem e me espanto com a cena: num amplo espaço por trás daquelas moitas, existia uma espécie de jardim. Mas a beleza das flores, dos cantos dos pássaros fora apagada pelo ato do velho senhor: nua, amarrada pelo pescoço com a coleira colorida de Macabéa, minha filha estava enforcada, sem reagir às investidas sedentas da língua do velho animal. Ele lambia-lhe suas genitálias e, sem pudor algum, masturbava-se com uma das mãos livres. Era um quadro horrendo que não pude me mexer por alguns segundos, paralisada pelo choque e por me ver em situação semelhante. O medo congelou-me. E a inércia demorou o bastante para que o velho percebe-se a minha presença e, sem terminar de vestir-se, fugir.
Não pude fazer nada. Caminhei tropegamente em direção ao corpo de minha filha e folguei a coleira que havia lhe ferido o pescoço, um filete de sangue, percorreu seu pescoço e se junto ao sangue que pingava de suas pernas. Até que um grito de dor saiu-me da garganta, extinguindo-me todas as forças que me restavam. Enquanto isso me abraçava ao pequeno corpo violado, tentando transferir-lhe um pouco de vida que ainda restava em mim.
2
Um filete de lágrima cortou-lhe a face ao ler a manchete do jornal: “Mais uma criança desaparecida é encontrada: vítima apresentava sinais de violência sexual”. O crime atroz o fez pensar como um ser humano pode chegar a essa condição tão bestial. Aos poucos, filmes de acontecimentos como esse lhe passaram pela cabeça. Lembrou das duas crianças estupradas e estranguladas pelo seu próprio tio; da mãe que num ato de vingança pela separação matou dois de seus três filhos; do homossexual que fora morto à pauladas e jogado em praça pública; e de seu irmão, doente mental morto no fim da tarde em uma rua movimentada.
Agatângelo era escritor, estava acostumado a lidar com todos os tipos de sentimento, mas nunca se habituou a ver atos de tamanha selvageria e tormento. Ainda tinha humanidade para se envolver e sentir esses crimes. Assim como todos, queria ver esses criminosos longe da sociedade, se possível mortos. Nunca compreenderia os motivos que levariam a uma pessoa a ferir de forma tão cruel um semelhante. Agatângelo é cristão. Segue à risca os preceitos de sua fé, o que só fazia aumentar sua compaixão. Além de ler o jornal todos os dias no parque, trazia no bolso um caderno de palavras-cruzadas e duas canetas de mesma cor, vermelhas.
A notícia fez da tarde que lhe parecia agradabilíssima um pouco triste. O tom cru com que a notícia era dada, como se fosse uma notícia qualquer, seguindo um modelo já pronto de notícias sobre crimes, o fez “cegar” diante com belo sol e do fresco vento que arrepiava os já esbranquiçados cabelos.
Era banguelo. Não completamente. Nos seus 55 anos alguns dentes ficaram pelo caminho. Mas ainda possuía aquele canino mal formado que saltava à frente dos outros dentes enfileirados da dentadura, onde um pequeno dente dourado destacava-se. Por esse motivo seu sorriso era tímido. Solitário em sua aposentadoria precoce, dedicou-se à literatura. Adorava ler os ditos escritores marginais. Talvez por isso achasse tão tosco a forma como aquelas matérias informavam sobre esses crimes: perdia-se a linguagem das ruas, dos vadios, dos assassinos e animais.
Pareceu-lhe que todos haviam lido o jornal hoje e, como numa espécie de medo coletivo, ninguém havia aparecido à praça naquela tarde, exceto uma mãe, que lia alguns livros, consultando-os ao mesmo tempo como se quisesse aprender tudo de uma vez; e uma pequena garota e sua vira-lata vestida com uma coleira que, de longe, ofuscava-lhe a visão.
Gostava de crianças, nunca fora casado e nem tivera filhos. Talvez viesse daí esse carinho pelos pequenos. Onde morava, existia uma boa quantidade deles, gostava muito de todos. Porém logo se formou um boato de que era pedófilo e que tentava seduzir as crianças. Após ser agredido por um dos pais resolveu afastar-se delas. Foi aí que se dedicou mais à igreja.
Afastou-se, mas o rancor ficou. Como ficou o rancor pela morte de seu irmão. Colôlô havia saído cedo de casa e sumira o resto do dia. Dando-se conta do sumiço do irmão, telefonou para sua mãe, que estava na casa de uma tia, para saber se Colôlô estava com elas. A resposta foi negativa. Após procurar o irmão por um bom tempo retornou para casa com uma grande expectativa. Sabia que não podia deixar seu irmão tanto tempo na rua, precisava tomar seus remédios. Os passeios eram recomendações médicas, mas não saídas tão longas, eram pra serem curtas, apenas para controlar o tédio. Colôlô tinha desenvolvido um distúrbio sexual após ser estuprado pelo próprio pai ainda na infância. A partir daí achava normal ter relações sexuais com menores. Mas, após ser pego prestes a estuprar uma vizinha de três anos, fora internado. Já há cinco anos vivia de forma sociável, até como humano era tratado. Até a chegada de Marta no condomínio.
Os tempos mudaram. E podemos dizer que Marta é fruto de seu tempo. Desenvolvida para sua idade, a menina de sete anos tinha conhecimento de que seu corpo bastante evoluído atraía olhares. Por esse motivo não economizava os micro shorts e os tops. Era uma vaca em ascensão. Sabendo do mal que padecia Colôlô gostava de provocar, apenas por emoção.
Eram vizinhos de janela. E, sua janela era de frente com a do quarto do irmão de Agatângelo. Não raro fora pego mastubando-se, olhando o pequeno anjo. A criança, fingida que só ela, fazia-se de desentendida.
Enquanto pensava, preocupado com o irmão, se dirigia à janela. Bastou apenas o tempo de encostar os cotovelos na borda da janela para ouvir: “Tão tarado quanto o irmão, filho de uma cadela!”. Era Tibério, o pai da criança a qual Agatângelo havia tido problemas meses antes. Enquanto tentava tirar Colôlô de cima de Marta, Tibério golpeou sua cabeça com um martelo de mecânico, matando seu irmão.
Sentando à fresca sombra do parque, Agatângelo teve seus pensamentos interrompidos pelo salto e lambidas da cachorra que usava a tal coleira colorida ofuscante. Enquanto se desvencilhava, ainda descontraído, das trapalhadas da criança e de seu animal, a mãe dela se dirigia espavorida para a cômica cena.
“Desculpe-me senhor, me distrai na leitura e a perdi de vista”, disse a mãe.
“Não se preocupe, adoro crianças”, disse com um sorriso largo, exibindo seu dente de ouro.
“Mesmo assim me perdoe”.
O curto diálogo foi o suficiente para que Agatângelo reconhecesse aquele sorriso. Era Marta, a pequena vadia que seduzira seu irmão. Por alguns instantes Agatângelo ficou petrificado. A respiração ofegante. Os olhos banhados em lágrimas emitiam uma ira doentia. Naquela época não podia dizer que a criança provocava seu irmão, era capaz de também ser agredido. A única coisa que tinha a fazer era calar-se diante da injustiça.
Mas agora a situação lhe era favorável. O parque estava deserto. Outros crimes em parques vinham acontecendo e o rosto do suspeito estava em todos os jornais. “Mas não posso matar a mãe, não associariam ao assassino das crianças.”. Ao pensar isso ouviu um leve barulho de riso por trás do matagal. Motivado por uma ação descontrolada, ergueu-se furioso deixando cair o jornal no chão e dirigiu-se ao encontro da menina.
Assim que atravessou o espesso matagal, a cadela pula sobre ele. Sem tirar o olhar da menina, retira suas duas canetas do bolso e crava no pescoço da cadela, que morre instantaneamente. Ainda tem tempo de ver o sangue reabastecer com mais tinta vermelha suas canetas.
Retira a coleira ridícula da cachorra e se dirige à menina que estava de costas. Enlaça-a com força o pescoço com a coleira e aperta-a não permitindo que nem um grunhido se escape. Ainda consegue sentir a última gota de saliva passar com dificuldade pela coleira que marcava o pescoço da garota, sangrando-a.
Ergue-a e a prende a um toco de madeira que oferecia-se como forca. Observa-a morrer aos poucos. Chutando o ar de agonia. É leve, o galho não cede ao seu peso. “Isso não é o suficiente”, pensa enquanto ergue o vestido da criança expondo a calcinha da Hello Kity.
A vagina da criança está exposta. Apenas um pequeno traço que logo é dilacerado pela resistente dentadura de Agatângelo. O sangue enche-lhe a boca. Cospe o pequeno clitóris no chão assustado ao ouvir o grito de dor de sua mãe. Retira-se calmamente ao perceber que a mãe encontra-se em choque. Ainda a ver retirar a colorida coleira da cachorra do corpo da criança. É quando ainda diz, inaudível, mas com prazer:
“Espero que a coleira lhe sirva, cadela”, e sai.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Com todo o meu proselitismo de falso escritor
Para o pranto que já estava pronto
Prato feito sobre própria mesa
Imprudentemente pratiquei
A protuberante prevacariação de mim mesmo
E propus-me a, prontamente, me personificar em outras pessoas
Pequei em meus próprios propósitos
Perseverava em perpetuar-me
Puro, prudente , perspicaz
E ponho-me agora, perpetuado por passeios póstumos em letras malsãs

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