Cansei do Salvador Dali Quero alguém que salve a mim Ou que me dê a sensação de
A canção mais bonita A doce sinfonia Acordar na madrugada Ver amanhecer o dia
O hálito quente O sono interrompido Por beijos noturnos O olhar de remela O bafo matutino
Quero a menina E o menino Que um dia sonhamos em ter
Quer desfaça-se o real Que venham os sonhos Só assim é possível e necessário viver
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
Hoje banhei-me com o sabonete do teu cheiro
E foi como molhar-me em você
E ao sair nu do banho, gotículas de sua essência escorriam por mim
Misturando-se à minha essência
E à toda casa
Seu cheiro marrom estava nos móveis, na cama, na comida que comia com a fome de um mendigo
Seu cheiro madeira habitava a madeixa de meus cabelos, a maneira de meu ser
A essência da tua ausência me habitava
Fazendo-me ausente de mim
E em tudo eu via você
Até no nada
Que aos poucos eu me tornava
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Mas “para sempre” era tanto tempo que ele não sabia que esse “tanto tempo” era tempo o suficiente para tanto. Amava-a. E amava-a ao modo de Vinícius, um amor realista que, por ser tão fiel a sua realidade, inexistia. As linhas da razão e dos sentimentos, constantemente, misturavam-se. E ele sabia: se isso acontecia ele não a amava. Mas quem era ele, ou você, para decidir “essas questões do coração”, como costumava dizer. O que importava para ele era que o cheiro o gosto o riso o olhar o toque TINHA QUE SER O DELA! Mas não sabia se isso bastava para dizer que a amava. Na verdade ele não estava nem um pouco a fim de definir o que sentia, “isso já faz parte do plano da razão, eu falo de sentimentos”, dizia consigo. Evitava pensar. Insistia em sentir. “Sentir ultrapassa qualquer compreensão”, afirmava, mesmo sabendo que o campo dos sentidos era perigoso. Mas isso não o importunava, acreditava que se parasse para pensar no que sentia, seu sentimento não seria espontâneo, como acha que deve ser, mas sim um sentir direcionado, focado para uma finalidade que sua mente já programou, mesmo que ele não soubesse. Nunca disse um “eu te amo”, “expressão mais subjetiva!”, falava com repúdio. Não preciso dizer o que sinto, apenas basta fazer com que a outra pessoa sinta o que sinto por ela. “O dizer é uma racionalização, prefiro demonstrar. É mais humano, é mais intenso, é mais amar”.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Dizei-me vós senhor deus
Como uma flor se desabrocha em tão ternas manhãs?
Se dormem antes, reclusas, nas tristes madrugadas vãs
E surgem – em riste – a desenrolar-se de enleios seus
Ei-a aqui: flor bruta da paixão abrupta
Bruta flor pura flor sem olores
Ou dissabores
Desprovida de razão, inculta
Incutida em meu jardim
Derrubando suas flores,
Lançando suas cores
Colorindo o até então deserto em mim
Ah senhor deus tu que desconheces o inacessível saber dos prazeres humanos, exasperar-se-ia tal qual o galo ao nascer do sol e, tal qual esse mesmo galo, resolveria cantar, a pleno pulmões, para que todos o ouvissem, a rouquenha melodia da canção apaixonada que, mesmo fanha, ou falha, falaria do nascer de mais uma estação.
domingo, 22 de novembro de 2009
Fui visitá-la. Há anos que não a vejo. Hoje está lá. Só. Ou melhor, ela e seu cão. Sempre criou algum animal para suprir a falta do marido que nunca teve. Se diz virgem aos seus setenta anos. Mais do que um motivo para vê-la como a vejo: uma santa. Principalmente quando ouço os seus “vátománocú” ou “filhosdaputa”. Uma santa ignorância. Ignorância não no sentido de ser rude. Mas no da falta de conhecimento. E isso não a faz menor diante de tantas outras santas – virgens ou não. Lá está ela, manca. Puxando uma pesada perna podre pela diabetes que aos poucos tolha-lhe a vida. Mas mesmo assim sorria. Gostava de vê-la sorrir um sorriso de poucos dentes apodrecidos pelo tempo e pela vida. É a beleza da espontaneidade nordestina. A despreocupação com exterior. E uma forte sensação de inferioridade. Mas isso não a fazia pequena – pelo menos diante dos meus olhos. Isso só a engrandece. Emociona-me. Faz-me a amar como uma segunda mãe que de fato foi. Apesar de analfabeta, teve na vida a melhor das lições. Conhecia o tempo, os costumes e soluções que só a mais pura ignorância pode ofertar: o conhecer a vida. Sem intermédios, por si só. Eis a maior lição dessa desdentada, gorda, das pernas podres e da ignorância estampada na testa: ela viveu. Viveu como poucos que se debruçam diariamente em livros podem viver – não importa quantas viagens faça futuramente. Ali estava a brutalidade lapidada pela vida. Construída em sua mais ínfima mania e motivada pelo mais puro amor. Amor esse que lhe devoto de todo coração. Eu te amo.
Sentia medo. Nada o ameaçava, mas sentia medo. De falar. Ele que iria criar a situação ameaçadora até então inexistente. Era preciso, algo interior lhe impelia a falar. Mãos molhadas se tocam. Fingia erguer-se, como para espreguiçar-se. Ao sentar-se novamente, roçava a lateral da mão na dela. Cochichos ao pé do ouvido. Coração acelerado. Algo se removia em seu estômago. Uma borboleta desenhou uma trilha imaginária, lutando contra os fortes ventos marítimos. O tempo se arrastava exigindo-lhe uma posição. Temia perder-se. Em falas escusas e equivocadas que poderiam afastá-la. Temia, também, a solidão – novamente ela. Tremia. Fazia frio, mas mesmo assim tomava uma cerveja encorajadora. Ela permanecia impassível em sua postura de bailarina. E sorria. E o sorriso alargava-lhe as várias pintas de seu rosto. Pequenos pontos negros que ele imaginava contornos, leves caminhos sobre sua pele. Sinais de riqueza alguns diriam. Distrai olhando-a sem que ela perceba enquanto toma coragem. Ombros se chocam ensaiando uma dança. As mãos já se roçam sem tanta timidez. Não se olham, os olhos seriam um bom caminho. Mas não eram eles que deveriam falar. Até que! Falou silêncio. Não, ainda não foi daquela vez.
Aos casais apaixonados e que encontram-se separados
E foram-se embora sem se dar adeus, ou tchau, até logo ou olá. Apenas desembaraçaram as mãos, ergueram-se e foram-se. O pescoço não se movia, rijo tal qual os mais tensos dos músculos. Apenas os olhos pareciam querer saltar pra trás do pescoço, buscando o outro para ver quem havia vencido àquela disputa de egos apaixonados. Nenhum ousou olhar para trás.
Os passos de ambos soavam descompassados com as reboadas do coração. O ritmo frenético do órgão contrapunha-se aos passos lépidos, era o desejo de não se afastar. Mas se afastavam cada vez mais e cada passo, fazia o tempo de ausência passar mais rápido e mais intenso. Nunca sentiram o passar dos segundosdécimosmilésimos de forma tão forte. Era a dor da separação que lhe aflorava à tez. Era o fim do amor, sentimento, mais, intenso, que, possa, existir, e, que, agora, em, sua, contradição, fazia, tudo, ser, tão, devagar, tão, arrastado, tão. Fim.
Até onde pode ir o orgulho humano. A que desprazer se submetem os apaixonados. Guerra íntima de declarações de amor inaudíveis e excludentes. Separações relâmpagos, flashes de provações mútuas. Torturas recíprocas. Eis o amor em sua crueza, pingando sangue. Amar é dar as costas e esperar para escutar passos vindo até você. Se não escuta, não há amor.
Dessa vez apenas o silêncio escutou. O som dos passos morriam vagarosamente e misturam-se aos sons dos cantos dos pássaros daquele fim de tarde. O amor morria com um belo arrebol vermelho ao fundo. Triste e dupla contradição a que apenas aos apaixonados é possível desfrutar.
Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.
Paulo Leminski